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Parapapa: O Rap das Armas e Tropa de Elite

Por Gabriela O. S. Miranda
gabirilla@gmail.com

Gabriela O. S. Miranda é graduada em Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense 
em 2008. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação na Universidade Federal 
Fluminense, onde desenvolve a pesquisa “A importância das tecnologias na produção musical 
e sua apropriação: O Funk carioca e sua materialidade”, e integra o grupo de pesquisa LabCULT.

 

A motivação inicial para a escrita deste texto deve-se à surpresa provocada pela enorme fama que o Rap das Armas, uma música antes censurada, alcançou após a chegada do filme Tropa de Elite às telas de cinema estrangeiras. Remixada por DJ’s de vários países da Europa, a faixa chegou ao topo das paradas da Suécia por três semanas no verão europeu do ano de 2009, sendo rebatizada por Parapapapa. O mais curioso é que a versão “estourada” lá fora foi proibida de ser reproduzida e comercializada no Brasil em meados da década de 1990, sofrendo acusações de incentivo ao crime e alusão a facções criminosas. Mas a popularidade do proibidão deve-se a outro fenômeno também bastante interessante entorno da distribuição do filme de José Padilha: a circulação massiva da cópia pirata, antes do lançamento oficial, que continha na abertura a versão ilegal.

Podemos cogitar a possibilidade da substituição da versão de Cidinho e Doca, proibida, pela de Junior e Leonardo, oficial, ter sido motivada pela pirataria, visto que não haveria diferença entre o original e a cópia clandestina, o que, a priori, iria prejudicar o retorno financeiro gerado pela audiência nos cinemas. Antes do lançamento de Tropa de Elite, um público significativo já havia assistido ao filme, vendido por camelôs nas ruas, que bradavam não somente Tropa de Elite, como também Tropa de Elite 2 e Tropa de Elite 3 (!). O sucesso foi enorme e, ironicamente, a pirataria acabou favorecendo o filme, surpreendentemente encorajando o público para assisti-lo na telona.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u323878.shtml

Mas antes de vermos o antigo proibidão tornar-se o hit das pistas de dança européias, vale à pena observar como sua inserção no exitoso filme de José Padilha nos remete à aspectos da paisagem sonora carioca. Considerando o contexto das favelas representado, a presença do funk no filme se faz quase que obrigatória, na medida em que concordamos que tal gênero musical é uma narrativa que reflete características marcantes do que se vive no Rio de Janeiro. A letra do rap dialoga diretamente com o argumento do Capitão Nascimento: a ocupação da maior parte das 700 favelas do Rio de Janeiro por traficantes equipados com armamento de guerra.

A paisagem sonora dos bailes

Morro do Dendê é ruim de invadir
Nós com os Alemão vamos se divertir
Porque no Dendê eu vou dizer como é que é
Aqui não tem mole nem prá D.R.E
Pá subir aqui no morro até a B.O.P.E. treme
Não tem mole pro exército Civil, nem prá PM
Eu dou o maior conceito para os amigos meus
Mas morro do Dendê também é terra de Deus
Fé em Deus! DJ, Vamo lá!...
Parapapapapapapapapapá!
Parapapapapapapapapapá!
Papará papará papará clackbum!
Parapapapapapapapapapá!

Rap Das Armas, por Cidinho e Doca

 

Os bailes funk, inicialmente realizados em clubes esportivos, são festas que a partir dos anos 80 se tornaram uma das principais atividades de lazer dos jovens habitantes das favelas e zonas periféricas da região metropolitana do Rio de Janeiro. De lá para cá, assistimos ao incremento da violência urbana, e à ascensão de facções criminosas em meio à ausência do Estado. O MC Leonardo, da dupla Junior e Leonardo, comenta no documentário Favela on Blast a resposta dada a um repórter que lhe perguntou por que a poesia da favela teria acabado. Com certa indignação, ele respondeu:

Depoimento de Leonardo em Favela on Blast

 

A fala do MC justifica que as transformações ocorridas nas comunidades, em decorrência do crescimento exponencial da violência, não encorajam os músicos locais a viver e cantar algo poético, tal como fizeram Cartola e Noel Rosa, o que nos remete à idéia de paisagem sonora. Basicamente, este conceito coloca em evidência a relação direta entre a identidade das metrópoles e os sons que a atravessam, uma vez que os sons mais presentes se tornam marcas sonoras de certos lugares. Como exemplo, no Rio e em outras cidades do Brasil, o som de fogos e de bombas em dias de jogo de futebol nos alerta para o início ou fim da partida e para um gol marcado. Em especial, na capital carioca, a explosão de fogos nas favelas pode funcionar como alerta para a chegada da polícia, tal como representa o “fogueteiro” assassinado pelo tráfico no filme, bem como os sons de tiros de revólver, ou mesmo de metralhadoras.

Tropa de Elite e o Rap das Armas

Abertura Tropa de Elite

 

No início de Tropa de Elite, um texto esclarece que filme tem por base os depoimentos de 12 oficiais da polícia do Rio de Janeiro e de um psiquiatra. Em seguida, surgem cartelas com créditos dos nomes que compõem o elenco do filme e o Rap das Armas já pode ser ouvido. Na passagem de um crédito para outro, as cartelas são atravessadas por flashes de imagens de luzes, pessoas dançando, metralhadoras e a caveira símbolo do BOPE. Esses flashes de imagens sempre entram cadenciados junto à pista sonora do “batidão” do funk, e quando o crédito reaparece, somente a voz dos cantores ressoa. Assim que termina a apresentação dos nomes do elenco, o clássico grito funkeiro “Fé em Deus, DJ!” dá início à primeira seqüência, e o espectador pode entender que os flashes anteriores são, na verdade, cenas do baile funk realizado no Morro da Babilônia. Neste momento, nota-se que o áudio sofreu algum tratamento para “naturalizar” a fonte sonora que está na tela. As caixas de som do baile, por onde saem as vozes dos MC´s Cidinho e Doca encima da batida, sustentam a diegese da cena e os cantores podem ser vistos, ainda que rapidamente, em cima do palco do baile. Na medida em que outros personagens chegam no morro e se movimentam, com seus “dedinhos pro alto”, o áudio sofre alterações para que o espectador ouça a partir do ponto de escuta do personagem que aparece na tela, mantendo o realismo pretendido pelo filme. Logo após algumas cenas do baile que mostram pessoas dançando, traficantes armados e os personagens que só posteriormente serão apresentados, ouvimos a voz do narrador comentando as imagens da sequência. Sua fala tem o mesmo mote do rap da versão proibida: a dificuldade da polícia carioca em penetrar nas favelas onde traficantes estão equipados com armamentos de guerra. Nascimento chega a mencionar algumas das armas que fazem parte da lista da trilha sonora. Em seguida, o narrador comenta a chegada da viatura da polícia que sobe o morro para buscar o “arrego” dos traficantes e dos personagens coadjuvantes, Neto e Matias. Sua voz não interrompe o som diegético, mas se mantém por cima das falas dos personagens em ação, comentando o que está para acontecer. Neto e Matias se posicionam num lugar estratégico, de onde podem ver a negociação entre a polícia e os traficantes na frente do baile. Na próxima cena, um disparo é feito por Neto e a imagem é congelada logo após o estampido do tiro por 12 segundos. Nesse momento fica claro que a diegese é interrompida por alguns instantes, enquanto o comentário do narrador sobre o delicado equilíbrio entre a munição dos bandidos e a corrupção da polícia se desenvolve.

Nascimento faz uma metáfora sobre a possibilidade de abalo desse equilíbrio devido à passagem de qualquer brisa, concluindo que naquele dia “ventou forte no Babilônia”. Na seqüência seguinte, tem início o tiroteio desencadeado pelo disparo de Neto, que acaba por interromper o baile funk e silenciar o Rap das Armas, como podemos ver no vídeo acima.

O começo do filme subverte a ordem cronológica da história contada e adianta em 6 meses as cenas das seqüências descritas. Com aproximadamente 56 minutos, o eixo da narrativa volta para o baile da Babilônia e o espectador já conhece a trajetória dos personagens em cena e os acontecimentos que os levaram até lá. O grito “Fé em Deus, DJ!” volta a soar no filme quando o coronel Olavo está na sacada do quartel fumando um charuto, enquanto seus comparsas levam o capitão Fábio para o baile onde ele deveria ser morto.

Sequência Bope invandindo Baile funk - Rap das Armas
 

Depois do grito, cenas das duas primeiras seqüências comentadas anteriormente voltam a se repetir, e o Rap das Armas retorna ao filme. Desta vez a voz de Nascimento em off é desnecessária e a cena do tiro disparado por Neto não é congelada, dando início a seqüência do tiroteio no qual Nascimento irá encontrar os possíveis substitutos para seu cargo no BOPE, Matias e Neto. Lembramos que no início do filme, o Rap das Armas é interrompido logo após o disparo de Neto, mas já na repetição da seqüência a música continua tocando em meio ao som de tiros e rajadas de metralhadoras. Antes da música desaparecer por completo, quando o baile funk é esvaziado, o som do Rap das Armas é encoberto pelo barulho dos tiros e de uma freqüência sonora que torna-se gradativamente mais intensa reforçando a dramaticidade do que está sendo encenado. Em seguida, o funk volta ao filme, quando o coronel Olavo aparece fazendo negociações numa boate. Ironicamente, a música ambiente é o Rap da Felicidade, também da dupla Cidinho e Doca, com o refrão “Eu só quero é ser feliz, andar traquilamente na favela onde nasci”, um dos mais populares do funk. Olavo atende ao telefone que soa e o espectador pode escutar a voz do major Oliveira desesperado no tiroteio.

A partir da análise acima, colocamos em perspectiva a idéia de que não somente o Rap das Armas compõe parte da trilha sonora de Tropa de Elite, mas que a faixa é parte fundamental do próprio filme, verificado que ela é parte integrante do contexto representado. Se por um lado avançamos em direção de pensar a importância da música num filme, por outro, percebemos a relação entre a cena funk do Rio de Janeiro, a presença do estilo na paisagem sonora e no imaginário da cidade.

Para fechar este bloco, temos outro trecho retirado do já comentado Favela on Blast, no qual se comenta a problemática presença da polícia nos bailes funk de comunidade, e o estigma sobre os frequentadores dos mesmos.

Repressão ao Funk

 

 

O Rap das Armas pós Tropa de Elite

Nesta última parte, ampliamos a discussão, apontando para os processos de mediação na cultura pop, afim de ilustrar como o proibidão Rap das Armas se transforma na lúdica Parapapapa.

Frequentemente, músicas que fazem parte de trilhas sonoras tiveram seu sentido modificado e sua popularidade exacerbada com a disseminação e o sucesso dos filmes a que foram incorporadas. O que é muito interessante em notar no caso de Tropa de Elite e o Rap das Armas é o curioso fato desta música ter ficado em primeiro lugar paradas de sucesso da Suécia, e de ter seu refrão onomatopéico incorporado aos gritos de torcidas de futebol de clubes europeus. O vídeo abaixo mostra a torcida do Djurgården, time de futebol suéco, cantado no mesmo ritmo da música de Cidinho e Doca:
 

 

Incontáveis versões de Parapapapa agitaram discotecas ao redor do mundo, e até uma versão no ritmo angolano Kuduro fez balançar galeras muito distantes de nós. Encontramos no YouTube imagens da edição da festa de música eletrônia Sensation, promovida em 2009 em Amsterdan:

 

Fora de seu contexto original a faixa perdeu o sentido original e as ligações estabelecidas com o local, adquirindo novos significados que também são refletidos por aqui. A possibilidade de circulação legal do Rap das Armas e sua comercialização na atualidade só é possível após sua ressignificação. Assim, incorporado à cultura pop da música eletrônica, o caráter belicoso da faixa foi perdido devido a total falta de entendimento da letra fora do Brasil, “limpando a ficha” dos compositores do proibidão e trazendo visibilidade e nova vida a suas carreiras.

O conteúdo da letra em português não dificultou o interesse pela mixagem da faixa nas apropriações realizadas. Além do sentido do Rap das Armas ter se perdido, a sonoridade típica do funk foi transformada, como podemos ver no clipe de Cidinho Doca:

 

Seguindo a onda de exemplos do sucesso do hit, reproduzo o trecho da reportagem do Globo Esporte que comenta a ubiquidade de Parapapapa na África do Sul durante a Copa de 2010.

“Não tem como fugir. Está em jogo de rúgbi, está em exibições da taça da Copa do Mundo, está em boates, está no treino da Coreia do Norte, está em toques de celular. É o som brasileiro mais famoso na África do Sul. Nada de Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Ivete Sangalo ou Zeca Pagodinho. É funk. É o Rap das Armas. A música da dupla Cidinho e Doca, que fez sucesso no Rio de Janeiro nos anos 90 e que integra a trilha do filme Tropa de Elite, divide com a seleção de Dunga a responsabilidade de representar o Brasil na terra do Mundial. E é difícil saber como a moda do “parapapapapa” (refrão da música, que reproduz uma rajada de balas) começou no país. Há várias versões, vários “donos”. De qualquer forma, é motivo de orgulho para os funkeiros da Cidade de Deus.”

http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2010/06/funk...

Outra reportagem interessante que aborda a relação entre Tropa de Elite e o Rap das armas, mas que remete à história do Funk precisamente, intitula-se De James Brown ao Rap das armas, veja a linha do tempo do funk carioca.

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1288890-7085,00.html

Com as observações aqui colocadas, chamamos atenção para a profundidade da relação entre trilhas musicais, e as paisagens sonoras dos lugares e contextos representados nas narrativas fílmicas. Relação que se perde, e ao mesmo tempo, se estende, em mediações culturais imprevisíveis, geradas através da circulação de obras cinematográficas e musicais no paradigma da globalização.

Referências bibliográficas

ESSINGER, Silvio. Batidão: uma história do Funk. Rio de Janeiro: Record, 2005.

GORBMAN, Claudia. Auter music. In: GOLDMARK, Daniel; KRAMER, Lawrence e LEPPERT, Richard. (org.) Beyond the soundtrack: Representing Music in Cinema. University of California Press, 2007.

JANOTTI Jr, Jeder Silveira – Música popular ou música pop? Trajetórias e Caminhos da Música na cultura mediática. V Enlepicc. Salvador, Ba. Nov 2005.

MORAIS, Fernando. Pode o cinema contemporâneo representar o ambiente sonoro em que vivemos? In: LOGOS 32 Comunicação e Audiovisual. Ano 17, No 01, 1º semestre 2010.

SÁ, Simone Pereira. Som de preto, de proibidão e tchutchucas: o Rio de Janeiro nas pistas do funk carioca. In: A. PRYSTON, & P. CUNHA, Ecos Urbanos - As Cidades e suas Articulações Midiáticas. Porto Alegre: Sulina, 2009.

SCHAFER, Murray. Afinação do Mundo. São Paulo: Unesp, 2001.

STILWLL, Robynn J. The Fantastical Gap between Diegetic and Nondiegetic In GOLDMARK, Daniel; KRAMER, Lawrence e LEPPERT, Richard. (org.) Beyond the soundtrack: Representing Music in Cinema. University of California Press, 2007.

VIANNA, Hermano. O Mundo Funk Carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Referencias filmográficas

PADILHA, José. Tropa de Elite. Brasil: 2007. 154 minutos.

HBL, Leandro; PENTZ, Wesley. Favela on Blast. Brasil: 2008. 84 minutos.

MEIRELLES, Fernando. Cidade de Deus. Brasil: 2002. 135 minutos.

Outras referências

http://en.wikipedia.org/wiki/Rap_das_Armas

http://www.terra.com.br/reporterterra/funk/dia3_not4.htm

http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2010/06/funk...

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1288890-7085,00.html

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u374593.shtml

http://www.terra.com.br/reporterterra/funk/dia3_not1.htm

http://www.terra.com.br/reporterterra/funk/dia3_not4.htm