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A traição de Manuel Puig: melodrama, cinema e política em uma literatura à margem

 Maurício de Bragança

Maurício de Bragança é graduado em História e Cinema, com Mestrado em Comunicação e Doutorado
e Pós-Doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é Professor Adjunto
do Departamento de Cinema e Video e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF.

 

Achincalhado pela crítica e adorado pelo público, o melodrama trabalha com o vulgar transformado num “drama de segunda ordem”, num produto de quinta categoria. Utilizando-se de uma matéria-prima cursi, exagerada, grosseira, o melodrama indica o lugar do popular. Em Manuel Puig, o melodrama está a serviço da desestabilização da dicotomia centro e periferia, problematizando estas relações e superando o que o escritor argentino acreditava ser uma intolerância dos intelectuais de esquerda, distanciados da vivência cotidiana deste popular em nome de quem estes mesmos intelectuais falavam.

A abordagem do melodrama, em última instância, como pretendemos demonstrar neste livro, é uma discussão acerca do lugar de fala do popular - um espaço que está marcado pelo embate entre as sujeitos culturais que negociam seus projetos políticos. Na configuração desta arena literária, aponta-se a atuação de um discurso hegemônico. Entretanto, em todo discurso hegemônico operam-se também resistências. Nosso empenho, ao analisar a literatura de Manuel Puig, foi o de realçar os conflitos em torno das hegemonias e resistências na produção cultural latino-americana, a partir do registro da linguagem do melodrama.

Pensar o melodrama na América Latina é pensar as diversidades presentes neste continente, em suas correntes regionais ou nacionais, como totalidades contraditórias. A abordagem do melodrama latino-americano deve levar em consideração sua formação histórica a partir dos modelos que geraram as contradições próprias a sua experiência. Nossa pesquisa e análise do melodrama, seja em sua matriz literária, seja em suas reapropriações, sempre estiveram atentas ao fato de que estávamos trabalhando com um objeto cuja matéria primeira era a contradição. Essas contradições foram assumidas por Manuel Puig, ao refletir sobre a cultura latino-americana frente aos discursos hegemônicos centrais, a partir de um modelo problemático de relação marcado pelas imagens emblemáticas de sedução e traição.

O melodrama, na América Latina, veio se inserir num cenário composto pela transculturação, pela heterogeneidade e pelo hibridismo, em zonas intermediárias de alteridades onde eram debatidas questões como o valor estético e a cultura; o sujeito e a representação; o corpo, o erotismo e a performance; a diferença, o poder e o gênero; a história e a teoria; a produção, a circulação e o consumo cultural, articulando de forma problemática os diversos lugares de enunciação. Assim, a literatura de massa, a cultura popular e o predomínio de um determinado conceito mercantil de cultura complicavam ainda mais o já complexo universo de reflexão sobre a América Latina.

Manuel Puig sempre perseguiu estes paradoxos que compunham o cenário do continente a partir de sua experiência argentina. Seu olhar buscava novos horizontes que traduzissem suas angústias ao mesmo tempo em que tentava fugir da feiúra dos pampas, das ausências contidas nesta paisagem, um lugar marcado pela monotonia da paisagem, sem acidentes de relevo, sem a presença do mar. Esta paisagem impelia o escritor argentino a outros cenários.

Numa entrevista a Jorgelina Corbatta, o escritor afirmava a importância dos trópicos em seu trabalho, dizendo que sempre tivera vontade de viver nos trópicos, aos quais encarava como uma espécie de paraíso perdido. Seu percurso literário como escritor de romances começa com as tensões da traição de uma diva do cinema hollywoodiano (La traición de Rita Hayworth, publicado em 1968) e termina, em finais dos anos oitenta, com a imagem sempre perseguida de uma noite tropical (Cae la noche tropical, publicado em 1988). É lá, numa espécie de trópico, que pulsa a vida para os personagens de Manuel Puig. Em sua obra, esse lugar quase imaginário se traduzia em um horizonte mítico, um escape possível da aspereza marcada pela negação e interdição oferecida pelos pampas.

Os trópicos mostravam-se modernos, cosmopolitas, cheios de vida, uma paisagem em technicolor. Assim, Manuel Puig, de uma maneira meio enviesada, meio tortuosa, aproxima-se dos companheiros de sua geração ao afirmar uma literatura cosmopolita, atravessada por imagens que transcendiam o mero cenário da narrativa, que naquele momento podia situar o universo em Macondo, em Comala, no sertão de Guimarães Rosa ou na própria Coronel Vallejos. A superação dos limites regionais na recriação destes universos recompunha uma mitologia latino-americana com ares universais.

Porém, diferentemente destes escritores, mais preocupados com um projeto edipiano de superação das literaturas centrais, em afirmar-se autônomos e superiores a seus “pais europeus”, Puig parecia mais seduzido por aspirações adâmicas. Seu impulso maior indicava uma necessidade urgente de reconfigurar seu paraíso particular, recriar o lugar de onde viera (ou melhor, o lugar para onde desejava ir) num cenário onde os trópicos tão cobiçados eram recriados em estúdio. Neste cenário, a trilha sonora era fundamental. Na realidade em technicolor produzida pelo cinema nos textos de Puig, os tangos e boleros tornavam os heróis invioláveis, que recobravam vulnerabilidade quando a música cessava. As letras das canções populares enchiam as personagens das verdades mais íntimas programadas pelo mundo dos sentimentos. Os trópicos fundavam-se na melodia interpretada de forma exagerada pelos deuses do rádio, redimensionando o que havia de sagrado na banalidade do dia-a-dia e conferindo um destino de mulher fatal à menos fatal das mulheres.

Em 1978 Manuel Puig escreveu um roteiro cinematográfico que nunca foi filmado. Intitulado Recuerdos de Tijuana, foi inspirado nos melodramas de cabaretera mexicanos dos anos quarenta. Ali está a aventura própria deste gênero recheada de assassinos, perseguições, moças viciadas e raptadas, mulheres de bandidos que se apaixonam pelo mocinho, e os indefectíveis versos do bolero de Agustín Lara: “vende caro tu amor, Aventurera...”.

No prólogo que apresenta o roteiro, o autor argentino instiga:

                                                                                                                                                                                                 Como ler um roteiro de um filme? Num bom romance o autor vai dando corpo a seus personagens, descreve-os ou deixa intuí-los através dos mais variados recursos literários. Aqui, em contrapartida, o leitor se depara com uma liberdade muito maior de imaginá-los. Uma possível leitura poderia ser feita atribuindo-se a esses personagens rostos de atores conhecidos de qualquer época e nacionalidade. Mas creio que muito mais criadora seria aquela leitura em que para animar cada personagem se escolhesse o rosto dos amigos e inimigos que povoam a realidade de cada leitor.


É interessante que, para ler um roteiro de cinema, Puig proponha ao leitor que abandone o universo imaginário das estrelas e se aproxime de uma realidade mais objetiva, mais reconhecível numa dimensão concreta e particular de cada um, num registro que, de uma certa maneira, aponta inclusive para indícios não ficcionais “no rosto dos amigos e inimigos que povoam a realidade de cada leitor”.

Puig jamais abriu mão do drama, mesmo quando, na segunda metade dos anos cinquenta, decidiu ir à Itália como estudante de cinema, em um momento em que o neo-realismo já era um fato consumado (e consagrado) no cinema italiano. As diretrizes ditadas pelo tom desdramatizado dos preceitos neo-realistas rechaçavam a “inventividade” e o drama tal como eram alimentados por Hollywood. Coco, como era chamado na intimidade, jamais havia pensado em ser romancista: seu destino era o cinema. Mas o momento era o de um modelo de cinema crítico e renovador, de denúncia social e política, que sentenciava a morte de Greta Garbo. Sobre a necessidade de um cinema político, Puig nunca discordou, mas não conseguia compreender porque o compromisso político de denúncia era incompatível com a urdidura dramática. Por que condenar Hollywood pelo fato de saber narrar? Segundo as percepções do jovem Puig sobre a gramática neo-realista ditada por Cesare Zavattini, saber narrar era a prova inquestionável de um discurso reacionário. O próprio cinema francês a la Renoir e Carné também era acusado de preciosista, demasiado personalista para a nova estética propalada pelo neo-realismo.

O escritor argentino aceitou o desafio e, ancorado no cinema rechaçado pelo projeto neo-realista, foi escrever romances que problematizassem as questões sociais argentinas (e latino-americanas) de uma forma praticamente inédita. Abandonando os sets de filmagem, mas adentrando na literatura pela imagem cinematográfica, Puig propôs uma nova abordagem da realidade na literatura, a partir do relato bem contado, de um enredo dramático focado numa imaginação melodramática que, porém, tornava-se densa e complexa na medida em que camadas antes ocultas desta realidade representada se revelavam.
Essa dimensão melodramática no enfoque da realidade na América Latina mostrava-se para Puig quase como um destino inevitável. Sob este eixo, as imagens que revelavam uma realidade complexa, sustentada por uma discursividade sentimental, podiam ser apreendidas e assimiladas pelo grande público.

A cultura de massa e a linguagem presentes nos processos hegemônicos guardam em seu interior espaços de articulação de resistências. No melodrama, o repertório aparentemente inofensivo e excessivamente sentimental, que se apresenta por vezes açucarado, por vezes amargo, não tem nada de ingênuo. Se de fato nos dispusermos a enfrentá-lo sem os preconceitos que costumam avalizar uma abordagem intelectual de alcance iluminista, perceberemos os sinais do embate provocados por uma história de dominação, exclusão e resistência que se apresentam em sua integridade e complexidade.

Entrevista de Manuel Puig a Joaquín Soler Serrano, no programa A fondo, pela Radiotelevisión Española, em 1976:
 

Sobre o livro A traição de Manuel Puig: melodrama, cinema e política em uma literatura à margem

A traição de Manuel Puig, recém-lançado, é um ensaio publicado pela EdUFF no qual Bragança aborda a obra do escritor argentino a partir do melodrama, que se abre, em última instância, como uma discussão acerca do lugar de fala do popular – um espaço marcado pelo embate entre as forças políticas que negociam seus projetos. Na configuração do campo literário e cultural latino-americano, o melodrama se apresenta como estratégia de resistência aos discursos hegemônicos que operaram padrões de dominação estabelecidos pelos estatutos canônicos no continente.

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