Laboratório de Etnografia e Estudos em Comunicação, Cultura e Cognição

Organizado em 2002 como Grupo de Pesquisa em Comunicação, Cultura e Cognição e creditado pelo CNPq e PROPPi (Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação) da UFF, o LEECCC nasceu com o objetivo enfatizar a etnografia como suporte metodológico em diferentes frentes de pesquisas, extensão acadêmica e consultoria/tutoria intelectual.

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A PESQUISA ETNOGRÁFICA

A tradição

Esse instrumento primordial que denominamos Etnografia pertence a uma determinada tradição de estudos e de investigação na produção de materiais para servir de análise que, simultaneamente, tem sido ferramenta técnica e metodologica. Como técnica, é a abordagem que mais tem se proliferado em pesquisas de desenvolvimento, implementação, avaliação e monitoramento de projetos na área de políticas públicas e sociais – saúde, educação, meio ambiente –, e da mesma maneira em áreas privadas relacionadas à cultura corporativa e à gestão do conhecimento.

Vários têm sido os projetos de avaliação e monitoramento nas relações de trabalho que requisitam etnógrafos (ou equipes de etnógrafos) na investigação do desempenho dos projetos em desenvolvimento. Seja sob o ponto de vista da cultura organizacional, do marketing do varejo ou das redes de relações interpessoais em ambientes de trabalho.

A pesquisa etnográfica apresenta e traduz a prática da observação, da descrição e da análise das dinâmicas interativas e comunicativas como uma das mais relevantes técnicas. Assim, ao se avaliar programas e projetos, visando a recomendação de soluções para os problemas e impasses identificados, deve-se levar em conta as evidências da observação e da descrição, elementos cruciais da atividade etnográfica. E, se é a partir dos encontros e relacionamentos que extraímos a compreensão e explicação das experiências humanas, que se dão no mundo da vida, no mundo do trabalho, no mundo do entretenimento e da arte, então, somente poderemos extrair as evidências necessárias para compreender os contextos destes relacionamentos, a partir das análises das dinâmicas que marcam esses encontros.

A filosofia da pesquisa etnográfica repousa na “doutrina” que compreende a vida e a existência social como localizadas e resultantes no fato mais óbvio: o encontro e o relacionamento. E é nesse e desse encontro que emergem todas as formas de negociação, solidariedade, valores, redes, transmissão, trocas, simbologias e cerimônias, conflitos, compartilhamentos, etc.

O vivido e o experienciado

É com este princípio que o LEECCC tem conseguido desenvolver o seu o objetivo de aperfeiçoar a etnografia. Uma tal proposição de trabalho implica um conjunto de procedimentos com o objetivo de exercer exaustivamente a descrição, inscrição e transcrição da experiências vivida em um determinado evento, situação ou fenômeno em questão, por meio da participação direta do observador no ambiente que se pretende conhecer.

Ao contrário das ciências de laboratório – Psicologia, Biologia, Química, Física –, de onde resulta a inspiração quantitativa, a etnografia ganhou força e presença efetiva inspirando a abordagem qualitativa da pesquisa em ambientes onde prevalecem os relacionamentos sociais, sejam esses humanos ou não-humanos. Com o desenvolvimento de modernas técnicas para a pesquisa qualitativa –grupos focais, entrevistas, observações, descrições, análise de linguagem – a etnografia tem, ultimamente, adquirido considerável avanço devido às constantes possibilidades de aplicação desta metodologia fora do ambiente acadêmico.

A clínica social

Resulta que o ambiente da pesquisa torna-se um laboratório vivo, no qual, o próprio observador (etnógrafo) deve levar em consideração todas as informações que possam constituir o ‘horizonte de possibilidades’ daquilo que se pretende observar para conhecer. Assim, não só o comportamento dos observados, mas as condições de constituição do próprio contexto dos observados –– como as relações de proximidade, as relações familiares, as relações de gênero, as relações étnico-raciais, as relações de política local, os engajamentos políticos e religiosos que envolvem os observados, o universo de valores e códigos de honra, os desejos, as memórias, as preferências, a recepção das informações e, inclusive, as reações do próprio modo de olhar do etnógrafo e o seu próprio comportamento ––, induz a experiência etnográfica a se transformar em uma verdadeira atividade de clínica social.

Por fim, o nosso projeto pode ser sintetizado a partir da seguinte proposta de trabalho: o objetivo maior da etnografia está no entendimento e na compreensão do desenvolvimento dos processos comunicativos com o propósito de identificar os padrões e regularidades das condições de mudança e de suas potencialidade entre os participantes de uma determinada atividade.

Uma vez identificada as referidas condições assinaladas procura-se compreender o modo com o qual os padrões interferem na dinâmica da atividade, seja de forma positiva ou negativa. Trata-se, portanto, da elaboração de diagnósticos críticos e formulações de uma avaliação cujos projetos têm como requisito a imersão do observador no ambiente que lhe permitirá identificar as manifestações apontadas.